AS BEM-AVENTURANÇAS
(Pe
Ignácio, dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO:
Dois evangelistas narram o que se tem chamado as bem-aventuranças. Mateus como
parte do sermão da montanha, pois foi desta cátedra que Jesus falou (5,1) e
Lucas que coloca o pequeno discurso paralelo numa planície (6, 17). Isso indica
que a circunstância é redacional, independente das palavras e idéias a
expressar. Também há uma grande diferença entre as oito ou nove bem-aventuranças
de Mateus e as quatro de Lucas. Ambos, porém usam a mesma palavra makarioi para
designar os contemplados como prediletos do reino. Que significado tinha nos
lábios de Jesus essa palavra e de que idéias hebraicas era tradução, de modo
que os ouvintes a pudessem entender? O grego makários significa tanto ditoso ou
feliz como bendito do verbo makarizo que significa declarar afortunado.
No primeiro caso, indicaria uma situação determinista da vida mesma, sem
ligação com ulteriores fins ou propósitos. No segundo caso, a palavra tem um
conteúdo teológico de modo que implica uma providência divina que, pelo
contraste com o sentir comum dos dirigentes religiosos, apontava uma nova era
completamente revolucionária em perspectivas religiosas. Esse é nosso caso.
O
MONTE: Tendo, pois, visto as multidões, subiu ao monte [oros<3735>=mons]
e tendo-se ele assentado, se aproximaram dEle seus discípulos (1). Então, tendo
aberto sua boca, os ensinava dizendo (2). Videns autem turbas ascendit in
montem et cum sedisset accesserunt ad eum discipuli eius. Et aperiens os suum
docebat eos dicens. Os comentaristas unem o sermão da montanha com a entrega da
Lei por Javé -Deus no monte Sinai no AT. Oros em grego, é usado por Mateus como
um ambiente paralelo ao lugar em que Moisés recebeu a lei no Sinai, sendo que o
cumprimento do primeiro mandamento receberia uma gratificação especial para os
que fielmente o guardavam (Êx 20, 6). Jesus também, do monte, ensina a nova lei
a seus discípulos. Porém, antes devem escolher o novo Israel, e daí as chamadas
bem-aventuranças. Os que por elas são alcançados serão o novo Israel e,
portanto, podem ser designados como verdadeiramente felizes. Jesus começa,
pois, por essa distinção em que derruba o velho conceito de etnia e
descendência como parte para formar a elite de Javé, e contrariamente, suscita
um novo modelo de povo de Deus, cuja base é precisamente o infortúnio material.
A eles Jesus abre um novo mundo de esperanças e felicidade. A lei, para os
judeus, não era unicamente o nomos [preceito], mas também abrangia declarações,
propostas e fatos de Deus em relação com seu povo escolhido. Neste sentido total
e amplo, Jesus determina primeiro o âmbito de seus verdadeiros escolhidos. Logo
propõe seus nomoi [preceitos], precedidos de uma retificação aperfeiçoada da
antiga lei: ouvistes que foi proclamado, eu, porém, vos digo (Mt 5, 21). Como
mestre da nova Lei, Jesus adota uma postura frequente entre os rabinos ou
mestres em Israel. Ele fica sentado, tendo seus discípulos e ouvintes ao seu
redor, geralmente de pé, pendentes de suas palavras. Os rabinos explicavam a
lei segundo as tradições [ouvistes que foi dito], mas Jesus explica a nova Lei
como quem tem autoridade para propô-la e anuncia-la como novidade feliz a um
público geralmente esquecido e desprezado. Constituía a esperança messiânica,
já atuando como realidade nova e definitiva. Finalmente, uma palavra sobre o
monte: Realmente, segundo Lucas, Jesus subiu ao monte para orar durante a noite
(Lc 6, 12). Na manhã, escolheu seus doze discípulos e logo ao descer do monte,
se deteve num lugar plano onde a multidão o esperava para ser curada de suas
doenças. Lucas, pois, circunscreve as bemaventuranças a uma planície,
embora tivesse como fundo o monte do qual acabava de descer. Também Lucas diz
que elevando os olhos aos discípulos dizia (Lc 2, 20).
AFORTUNADOS
Ditosos [makarioi<3107>=beati]
Os
pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus (3). Beati pauperes spiritu
quoniam ipsorum est regnum caelorum. A palavra, usada tanto por Mateus como por
Lucas, no início de cada versículo é MAKARIOI, em grego, plural de Makarios
<3107>. Logicamente Mateus e Lucas usam a palavra como tradução de um
original aramaico usado por Jesus. Qual é essa palavra e que significado se
encerra na raiz da mesma? 1°) No AT: . Existem no hebraico bíblico dois verbos
com o sentido de abençoar. Um deles é Barak <01288> que é só empregado
por Deus no Pile [intensivo ativo] indicando uma ação contínua, como em Gn 1,
22: E Deus os abençoou [yebarek] dizendo: sede fecundos. Usando a mesma raiz,
Deus abençoou também o dia sétimo. A setenta traduz por eulogesen louvar ou
falar bem, a Vulgata por benedixit, que no inglês é traduzido por blessed. De
barak temos baruk [bendito] e a palavra beraká [bênção], cujo plural é
berakoth. Todas as berakoth começam com Baruk Ata Adonai que pode ser traduzido
por louvado seja meu Senhor [=Deus]. Os setenta traduzem baruk [bendito] por
eulogetos ou eulogemenos (Dt 28, 3 +). O outro é Ashar <0833> cujo
significado primitivo é avançar; também no pile significa pronunciar feliz e
pela primeira vez o encontramos em Gn 30, 13 em boca de Lia: Feliz, eu [beasheri],
porque chamar-me-ão ditosa [asheruni] todas as mulheres. Nos setenta, os termos
em colchetes são traduzidos por makaria e makarizousin, a mesma raiz empregada
nas bemaventuranças. Não entramos em maiores detalhes. Só com o dito podemos
dizer que barak [eulogeo<2127>,] é a palavra reservada para a ação
divina, quando declara bendita uma pessoa; e asher [makarios<3107>] é a
ação do povo que vê uma circunstância que torna feliz uma vida. Logicamente
essa circunstância provém de Deus como causa principal. (Os números
correspondem aos de Sprong). Os evangelistas têm muito cuidado nas palavras com
as quais escolhem as ipsissima verba Christi e, portanto, acreditamos que se
ambos os evangelistas escolheram makarios como tradução das palavras de Jesus,
este não quis dizer que eram abençoados por Deus, mas declarados felizes pelos
homens. Jesus quer mudar o modo de pensar dos discípulos para que estes
pudessem ver nos pobres, nos aflitos, nos humildes, nos famintos, uma classe de
predileção divina que os tornavam desejáveis e invejáveis. Jesus, praticamente,
na sua primeira lição pública define a conduta humana diante da pobreza tanto
material como espiritual do mundo que o rodeia. 2°) No grego clássico, a
palavra makarios inicialmente significava livre dos cuidados e preocupações de
todos os dias. O significado é afortunado. Assim, a ilha de Chipre é chamada de
‘e makaria [a afortunada] por ser uma ilha verde e próspera. Homero chama os
deuses de ‘oi makrarioi [os felizardos] em comparação com os humanos que devem
trabalhar para poderem viver. Na linguagem poética, descreve a condição dos
deuses e daqueles que compartilham da existência feliz deles. Aos poucos,
perdeu seu significado original para se tornar num equivalente do nosso Feliz.
Quando acompanhada de tu ou vós, se transforma em bemaventurado, ou
bemaventurados, indicando um elogio por parte dos conhecedores do caso. Como
tais, são parabenizados os pais por causa dos seus filhos, os ricos por causa
de suas riquezas, os sãos pela sua saúde, os sábios por causa de seu
conhecimento, os piedosos por causa de seu bem-estar interior, os mortos por
terem escapado à vaidade das coisas. Indica, pois, como motivo, uma
circunstância especial que acompanha uma certa classe de homens e que por esse
requisito podem ser considerados afortunados. 3°) No grego bíblico makarios
traduz o hebraico esher [felicidade], ashar [declarar bemaventurado], ou asheré
[bem-estar]. Vemos o asheré traduzido por makarios no salmo 2,12:
Bemaventurados todos os que nele se refugiam; ou o salmo 32,1 e 2:
Bemaventurado aquele…e bemaventurado o homem a quem o Senhor não atribui
iniquidade. Em ambos os casos makarios é usado como tradução de asheré. O homem
é bendito, e especialmente esta bênção provém de Deus. No NT é claro que
substituímos o asheré hebraico por Makarios. Makarios aparece 13 vezes em
Mateus e 15 em Lucas e apenas duas em João: Bemaventurados, pois, se praticares
estas coisas (13, 17) e Bemaventurados os que não viram e creram (20, 29). No
caso de Mateus, os bemaventurados não são os discípulos; mas, estando a frase
em terceira pessoa é qualquer um que se encontra em semelhantes circunstâncias.
A estimativa predominante do Reino de Deus leva consigo uma inversão de todas
as avaliações costumeiras. E todos os que compartilham dessa experiência da
chegada do Reino, nas circunstâncias reveladas na frase inicial, serão benditos
por esse dom recebido de Deus de modo gratuito. 4°) Mas vejamos as traduções:
Dichosos ou Felices em espanhol, Beati em latim e italiano, Fortunate em
inglês, embora a KJ traduzirá Blessed, Felizes em português e Hereux em
francês. É uma palavra que indica completa satisfação ou felicidade. Todas elas
cumprem as palavras de Dt 33, 29 em que o hebraico asheré é traduzido por
makários e por ditoso: Ditoso [makários] tu Israel. Quem como tu povo
vencedor? Deus é o escudo que te protege, a espada em marcha que te conduz ao
triunfo. Ou o salmo 144, 15: Ditoso [makários] o povo que tem tudo isso; ditoso
[makários] o povo, cujo Deus é o Senhor. Em Baruc 4,4 temos: Felizes [makarioi]
somos Israel, pois podemos descobrir o que agrada o Senhor. 5°) Como
Conclusão, podemos afirmar que a palavra grega makários tem o significado de
homem cuja vida é invejada por ser um privilegiado por Deus nos seus planos
beneficentes. Em definitivo, podemos facilmente traduzi-la por BENDITO ou
ABENÇOADO. Deus está no meio, por ser a causa de todos os verdadeiros bens. O
Makarioi de Jesus entra, pois, nos planos divinos, como causa principal ao ser
Deus o observador que escolhe seus eleitos, como declara Maria em seu canto:
Exultou meu espírito em Deus meu Salvador porque ele fixou seus olhos na
insignificância de sua escrava (Lc 1, 47-48). Até agora no mundo católico,
quase de forma geral, as bemaventuranças eram vistas como prêmio oferecido às
virtudes dos que mereciam semelhante elogio. Hoje não são consideradas como
recompensa de virtudes, mas como escolha divina, que, em sua misericórdia, quer
favorecer os mais desamparados. Não é a virtude interior alcançada, que obtém
um prêmio, mas são as circunstâncias que favorecem a ação divina em sua
misericórdia. Deste ponto de vista, podemos enxergar todo o contexto como sendo
uma política divina que dá uma reviravolta na totalidade do pensar e atuar
humanos. Jesus, em nome de Deus, como seu profeta, declara quais deveriam ser
chamados de ditosos ou afortunados. Assim começa a nova economia que inicia uma
nova visão do mundo dos sofridos e desafortunados. Esta situação, no lugar de
ser uma situação de infortúnio, ou um estado aparente de desdita, é, pelo contrário,
uma condição de sorte, porque as riquezas divinas estão à disposição dos que se
supõem ter herdado o azar como condição de suas vidas. Como diria Paulo, na
fraqueza é que se manifesta (mais) o poder [de Deus] (2 Cor 12, 9). Por isso,
todas as bemaventuranças terminam com um porque em que Deus entra como causa
ativa, subentendido na passiva do verbo correspondente, passiva que era
praticamente usada só para atuações divinas. Talvez a melhor tradução seria:
Sois abençoados por Deus vós os… O ESQUEMA: temos em cada bemaventurança uma
prótasis [primeira parte de um poema teatral] e uma apódosis [explicação]. A
prótasis ou primeira parte de cada oração é uma circunstância da vida,
independente da vontade da pessoa respectiva. A apódosis é a explicação do porquê
e como a sorte lhes favorece. Como caso curioso podemos ver que as quatro
primeiras começam com a letra pi em grego: Ptochoi [mendigos], penthountes
[chorantes], praeis [mansos] e peinountes[famintos]. Quando se sabe que a
kabala era característica da interpretação das Escrituras, há uma pequena razão
para pensar que Mateus, legista e intérprete da lei, tivesse alguma razão, por
nós hoje desconhecida, de seguir seus ocultos princípios. PTÔCHOI: No AT
ptochos aparece perto de 100 vezes e são a tradução de 7 palavras hebraicas:
1°) `anav <06035> é sinônimo de humilde, especialmente quando em forma
adjetivada acompanhado de Jahvé. Com seu número de Sprong <06035> aparece
24 vezes, especialmente nos salmos e em Isaías, a começar por Moisés que é
declarado o mais humilde, ou mais manso dos homens como traduz a Vulgata. O
anav desse número é geralmente traduzido por prays [manso](12), penes [pobre]
(11) e tapeinós [baixo] (1). Na vulgata, temos mites (6) mansuetus (6) e pauper
(12). Existem duas frases em que anav acompanha terra anav heretz. E que
em ambos são traduzidos por prays ou mansos. 2°) ‘ani [37 vezes] <06041>
que tem o significado de pobre, humilde, modesto, oprimido. A primeira vez que
aparece é em Êx 22, 24: Se emprestares prata ao meu povo, ao pobre [ani e
ptochós] que está contigo. Quando não se menciona o opressor a palavra
significa realmente pobre material, os que não têm terra. A Setenta traduz,
indistintamente, ani por pobre ou humilde. 3°) `anah<06033>. A
única vez que anah sai é em Daniel 4, 27: redime tua iniquidade para com os
pobres <06033> em grego penetön [=dos pobres]. 4°) dal [22 vezes]
<01800> baixo, fraco, pobre, magro. Fisicamente dal significa fraco e
passa a ser empregado para as classes sociais mais baixas como camponeses, pobres,
necessitados, sem importância. 5°) Ebyon [11 vezes] <034> significa
pedinte de esmolas, mendigo; ou seja, os muito pobres e sem lar. 6°)
Rush [11 vezes] <07326> necessitado, pobre, é uma palavra que
se emprega como contraste de rico. 7°) Misken.<04542>. Nos tempos
mais modernos usa-se misken, um termo que os mendigos orientais empregam para
definir a si mesmos. Que deduzimos então? Se o mendigo é precisamente o ebyon e
equivale ao endeês [menesteroso em grego] o ptochós de nossa bemaventurança pode
ser pobre no sentido de desvalido, sem recursos, cujo único goel [defensor] era
Jahvé, em oposição aos ricos que dependiam de suas riquezas como base
fundamental de suas vidas. Os textos mais modernos descartam o pobre material e
traduzem o Ptochós como humilde, ou humilde de espírito (AV), ou os que têm o
coração de pobre (francesa). A melhor exegese será, sem dúvida, a feita por
Maria: Depôs poderosos de seus tronos e aos humildes exaltou. Cumulou de bens
os famintos e despediu ricos de mãos vazias. Parece que Jesus aprendeu bem de
sua mãe esta política divina que tão bem se realizou na sua família. Os rabinos
louvavam a simplicidade e a humildade, mas nunca a pobreza porque, segundo
eles, nenhum dos males poderia se equiparar ao mal da pobreza; daí que Mateus,
legista e conhecedor das tradições judaicas, teve que acrescentar uma
explicação ao simples fato de pobreza. Pois para esses mestres da Lei a riqueza
era o prêmio justo da virtude e a pobreza era considerada como legítimo
castigo. Porém, a pobreza entra nos planos de Deus e a sua aceitação coloca os
pobres como escolhidos às portas do Reino do qual Jesus era o arauto ao
proclamar as condições que o limitavam, segundo Is 61,1: Ele me enviou a
anunciar a boa nova aos pobres [ptochoi em grego e humildes nas versões mais
modernas como a italiana]. Na História do Israel antigo, após a economia
inicial de troca, uma vez consolidada a monarquia, o dinheiro tomou conta da
economia e muitos dos agricultores passaram a depender dos homens das cidades.
Este empobrecimento não só se tornou um problema social, mas religioso como
fruto da quebra da Lei, tornando-se uma injustiça, atacada pelos profetas do
século VIII aC. que ameaçavam com o juízo divino os ricos que eram culpados. E
é nesta situação histórica, que podemos entender o significado de pobre e
necessitado. O pobre que sofre injustiça porque outros se tornaram gananciosos,
volta-se indefeso e humilde a Deus em oração, pensando que a ajuda divina em
suas necessidades é a base da glória a Deus. Pobres, são os que se voltam a
Deus em suas necessidades, pois é um Deus-protetor dos pobres (Sl 72, 2): Com
justiça ele [o rei] julgue o seu povo, salve os filhos dos indigentes [anawim e
ptochoi] e esmague seus opressores. No salmo 132, 15 diz: De pão fartarei seus pobres
[anawim e ptochoi]. A desgraça do exílio levou, temporariamente, ao emprego das
palavras pobre e necessitado como termos coletivos para o povo. No judaísmo
tardio, tanto a pobreza material como o aspecto da sua espiritualização têm
características novas: Todos os grupos religiosos tinham suas formas especiais
de obras de caridade. Nas sinagogas havia uma organização para ajuda dos
pobres, existindo esmolas públicas semanais. Cada sexta-feira, aqueles que
viviam na localidade, recebiam dinheiro suficiente da cesta dos pobres [quppah]
para 14 refeições ; os estrangeiros recebiam comida diariamente da comida dos
pobres[tamhuy]; esta comida tinha sido coletada antes, de casa em casa, pelos
oficiais dos pobres. Na diáspora, as sinagogas frequentemente estabeleciam uma
comissão de sete para esse serviço, como fizeram os apóstolos em Atos 6, 1-6. A
distribuição das esmolas era considerada particularmente meritória, se feita na
cidade santa. A semelhança entre hoje e antigamente é tão grande –escreve J.
Jeremias- que há algumas dezenas de anos encontravam-se leprosos, pedindo
esmolas nos seus lugares habituais, no caminho de Getsêmani, fora dos muros da
cidade. Em Jerusalém, a mendicância concentrava-se em torno do Templo, como
vemos em At 3, 1-8. Como temos visto, os setenta traduzem anawim por ptochoi.
Portanto, esta palavra perdeu o significado de mendigo para denotar o homem
indefeso, que só tem como avaliador Jahweh e que nele depositou sua inteira
confiança. A palavra pobre não significava a mesma coisa para um grego e para
um judeu. Para o grego era um mendigo; para o judeu era aquele que não possuía
terras (Êx 22, 24). Naturalmente, neste último caso, os pobres eram também
gentes desprovidas de influência social, frequentemente exploradas e
humilhadas. Em grego, temos a palavra Ptochós [mendigo] com necessidade de
pedir esmola para subsistir e a palavra Penës, o pobre que não é rico, mas tem
necessidade de trabalhar para poder viver. Como temos visto, ao explicar as
diversas palavras usadas no hebraico, os pobres podem ocupar o lugar da palavra
anawin, que tem um significado contrário ao de rico, com conotações religiosas
de confiança em Deus. TO PNEUMATI: que pode ser traduzido em espírito ou de
espírito. Evidentemente, o espírito é o espírito humano. Portanto temos: Ou
pobres de espírito, que significaria acanhados; ou pobres por espírito, por
eleição, pessoas estas que aceitavam a pobreza como natural ou como voluntária.
O texto grego presta-se, pois, a duas interpretações: 1) pobres quanto ao
espírito 2) pobres pelo espírito. A primeira pode ter um sentido pejorativo
como homem de qualidades diminuídas. Ou um positivo como aqueles desapegados do
dinheiro, embora o possuam em abundância, sentido este excluído pelo próprio
Jesus em Mt 6, 19-24 e pela condição imposta ao jovem rico. Na tradição
judaica, os termos anawim/aniyim designavam os pobres sociológicos, que punham
sua esperança em Deus por não achar apoio, nem justiça na sociedade. Jesus
recolhe este sentido e convida a escolher a condição de pobres [opção contra o
dinheiro e a posição social] entregando-se nas mãos de Deus. O termo
“espírito”, na concepção semita, conota sempre força e atividade vital. Neste
texto, denota o espírito do homem. Na antropologia do AT o homem possui
“espírito” e “coração”. Ambos os termos designam sua interioridade; o primeiro,
enquanto dinâmica, sua atividade em ato; o segundo, enquanto estática, os
estados interiores ou disposições habituais que orientam e matizam sua
atividade. A interioridade do homem passa à atividade enquanto inteligência,
decisão e sentimento. Dado o que Jesus propõe, é uma opção pela pobreza, e o
ato que a realiza é a decisão da vontade. O sentido da bemaventurança é,
portanto “os pobres por decisão”, opondo-se aos “pobres por necessidade”. Transpondo
o nome decisão pela forma verbal, tem-se “os que decidem escolher ser pobres”.
A vulgata usa pauperes spiritu do grego ptochoi to pneuma. A tradução da
bíblia protestante na sua VA [versão autorizada] é: Bemaventurados, os humildes
em espírito. As bíblias católicas conservam a palavra pobres e traduzem pobres
de espírito ou em espírito e algumas pobres de coração. Duas traduções fazem
uma exegese particular: A versão AL [América latina] os que têm o espírito de
pobres e a francesa: ceux qui ont um coeur de pauvre [que têm um coração de
pobre]. A bíblia de King James traduz poor in spirit e comenta que ptochós é
uma pessoa que não pode se ajudar, ao contrário de penes, que, sendo
pobre, pode se virar, como dizem. E comenta: o primeiro passo para ser abençoado
é a admissão da própria inutilidade espiritual. Enquanto Mateus dá uma
explicação sobre o significado de Ptochoi [pobres], Lucas nada diz sobre a
natureza da pobreza, aludida por Jesus na primeira bemaventurança. Segundo
Lucas, é a pobreza material a que abre as portas do Reino. Segundo Mateus, essa
pobreza tem um matiz necessário: é a pobreza fomentada no espírito, no desejo,
no interior ou pensamento, ou tomada como objetivo na vida, que implica não
considerar as riquezas materiais como finalidade da vida. Na realidade, ambos
os termos podem ser vistos com uma convergência: a pobreza material é um
pré-requisito para a pobreza espiritual, muito mais difícil de se conseguir
quando a riqueza é o berço em que fomos aninhados. Uma interpretação moderna é
de que os homens só podem ser abençoados por Deus quando diante dEle se
comportarem como mendigos às portas de sua misericórdia. Vejamos duas
interpretações: 1°) Do ponto de vista católico e fundamentada em Mateus:
a) a primeira Bemaventurança seria a bênção divina para os que escolhem ser
pobres, porque no lugar da riqueza, estes terão a Deus por seu único Rei, que,
por sua parte, escolhe os válidos e preferidos entre os pobres e oprimidos. No
texto de Mateus podemos interpretar pobres no espírito como aqueles que não têm
ambições de riqueza, que não se deixam levar pela avareza. b) Finalmente,
pobres no espírito pode significar aqueles que carecem de qualidades humanas.
Qual delas é a mais correta na interpretação das palavras de Jesus? Segundo a
maioria dos autores, Ptochoi traduz o hebraico Anawim que Jesus explicará em
Mateus 6, 19-21; 24 em que Jesus rejeita o desejo das riquezas e as antepõe ao
serviço devido a Deus, já que não podemos servir a dois senhores. Quando da
recusa do jovem em abandonar suas riquezas, Jesus comentará que é difícil para
um rico entrar no Reino, pois na realidade ele está dominado pelo senhor
contrário ao verdadeiro Senhor: Deus (Mt 19, 16+). E é nesta última situação
que as palavras de Lucas adquirem o verdadeiro valor como Bemaventurança. Um
último comentário: Pelo que Mateus nos dá a conhecer sobre o sermão da montanha
parece que as bemaventuranças foram redigidas sobre a frase tão repetida neste
capítulo V: Ouvistes que foi dito aos antigos; eu, porém vos digo. Isto é: nas
sinagogas vos foi ensinado; porém, a verdade é outra diferente que eu vos
declaro agora. Por isso a melhor tradução, sob o ponto de vista exegético,
seria: Ouvistes que vos foi ensinado que os ricos eram benditos de Deus; eu,
porém, vos digo que são os mais pobres os escolhidos e os que verdadeiramente
são os benditos de Deus, que na terra vão constituir seu Reino. De fato, Paulo
dirá aos de Corinto: Não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos
poderosos, nem muitos de família prestigiosa… Deus escolheu o que no mundo é
vil e desprezado… a fim de que aquele que se gloria, glorie-se no Senhor. (1
Cor 1, 26-31). A bênção era tão inusitada para a época em que a pobreza era
considerava pior que a lepra como castigo divino, que Mateus ou o seu copiador,
se sentiu obrigado a introduzir um pequeno parêntese explicativo para
restringir a pobreza a limites aceitáveis pelos seus leitores e assim fala dos
pobres de coração que hoje chamaríamos pobres sem ambição, e que os evangélicos
traduzem por humildes de espírito. Porém, devemos manter o original de Lucas
que fala dos simplesmente pobres, indigentes, porque a bênção divina é tanto
mais completa quanto mais miserável aparecer a condição humana. Assim se cumpre
o dito de Jesus que afirma ter vindo salvar o aparentemente perdido. Como
consequência, não devemos desprezar esses mendigos que tratamos de vagabundos,
porque eles merecem um lugar de destaque no reino, e nosso amor para com eles
só será um espelho do amor de Deus exemplificado nesta bênção. Em termos
gerais, podemos considerar que se Lucas é o taquígrafo das palavras de Cristo,
Mateus é seu intérprete e catequista. Daí as diferenças. Segundo as palavras de
Jesus, citando, em Lucas, Isaías 61, 1: Ele me enviou a anunciar a boa-nova aos
pobres [anawim e ptochoi, o latim mansueti, que traduz o italiano umili e
a VA quebrantados] os pobres poderiam ser os aflitos por suas necessidades
materiais. De fato, as classes inferiores, escravos e necessitados se
beneficiaram do evangelho em forma tal, que Jesus teve que afirmar que
dificilmente um rico entraria dentro do esquema do mesmo. Serão, pois os pobres
materiais os sujeitos da bemaventurança, embora devam ser excluídos da mesma os
que se rebelam contra sua pobreza e não a aceitando, rejeitam os planos de Deus
que prefere os deserdados aos ricos e opulentos. 2°) A evangélica de Robert H
Mounce; em resumo será: Jesus exclama que não são os ricos e poderosos, mas os
pobres e humildes dos quais se podem dizer, na verdade, que são bemaventurados.
A apreciação de Jesus das coisas que constituem a vida, como deve ser vivida,
ressalta em forte contraste com a sabedoria convencional… Na linguagem
hebraica, pobre não era apenas a pessoa em desvantagem econômica, mas todos
quantos, em sua necessidade, apelam a Deus em busca de ajuda (Sl 69, 32 e Is
81, 11). Estes são os anawim, “os humildes pobres que confiam na ajuda de
Deus”. Pobre de espírito significa depender totalmente de Deus para ajuda,
segundo o Salmo 34, 6: Clamou este pobre e o Senhor o ouviu; salvou-o de todas
as suas angústias.
REINO
DOS CÉUS: A promessa mais explícita, como esperança de cada bemaventurança, é a
entrada no Reino, que Mateus chama dos céus, especialmente explicitada na
primeira e na última, oitava e final, da lista por ele apresentada. Mateus é
praticamente o único evangelista que chama reino dos céus [15 vezes] enquanto
os outros dois denominam Reino do (sic) Deus. Em que consiste esse Reino que
parece ser a base da pregação de Jesus? Nas suas parábolas Jesus o descreve
como um banquete nupcial (Mt 22,1+), como um precioso tesouro (Mt 13, 44). Mas,
em que consiste? No AT só encontramos uma vez e em grego a frase Reino de Deus
[basiléia theou] no livro da Sabedoria que não é admitido como canônico pelos
evangélicos: Ela [a sabedoria] guiou por sendas retas o justo [Jacó], que fugia
da ira de seu irmão [Esaú], lhe mostrou o reino de Deus e deu-lhe o
conhecimento das coisas santas [significando o governo do mundo por meio
de seus anjos e em particular a bondade de Deus para com o patriarca] (Sb 10,
10). Por Daniel, especialmente no capítulo 7, sabemos que os quatro
reinos procedentes do mar [do abismo, símbolo do mal] foram substituídos pelo
reino que procedia das nuvens do céu [de Deus]. Era o Reino dos céus segundo
Mateus ou Reino de Deus do qual Jesus se diz representante, assumindo a figura
de Filho do Homem (Dn 7, 13). Das palavras de Jesus, dificilmente saberemos a
resposta positiva; sabemos quais são as pessoas que entram facilmente [pobres,
crianças] (Mt 5,3 e 19, 14) e quais as que têm dificuldade [ricos, autoridades
religiosas] (Mt 19, 23 e 21, 31) . Sabemos que o Reino exige uma honestidade
própria [mais estrita que a dos escribas e fariseus] (Mt 5, 20). Que para um
escriba era necessária uma espécie de renovação como novo nascimento, que é da
água e do espírito (Jo 3,5). Um reino que implica uma nova relação com Deus,
não em forma aparente e externa, mas interior (Lc 17, 21). Um reino que
consiste essencialmente em que a vontade divina seja a norma indispensável da
vida (Mt 6, 10). Um reino que se mostrará patente após a morte de Cristo porque
muitos dos ouvintes de Jesus estarão presentes ao seu início visível (Lc 9, 27)
para o qual haverá sinais prévios (Lc 21, 31). Reino que terá Pedro como
supremo supervisor (Mt 16, 19). Os apóstolos, seguindo esta linha de Jesus, nos
dizem que o Reino consiste não em palavras, mas em poder (1 Cor 4, 20). Não em
comilanças e bebedeiras, mas em honestidade, paz e gozo no Espírito Santo (Rm
14,17); que nem luxuriosos, nem idólatras, nem adúlteros, nem depravados, nem
efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem
injuriosos herdarão o mesmo (1 Cor 6, 9-10); coisa que repetirá Paulo em Gl 5,
21. Trabalham pelo reino os apóstolos e com eles os que os ajudam (Cl 4, 11).
Deste reino que podemos chamar na sua face terrena, chegamos ao definitivo ao
eschaton do qual temos a palavra de Jesus que beberá do fruto da vide quando
chegar o Reino de Deus (Lc 22, 18). Este é o reino que Jesus admite como
próprio e do qual como gozo definitivo promete participar aos que nele confiam
(Lc 23, 42-43). Podemos, pois, responder à pergunta qual é esse reino que a
eles é prometido? Sem dúvida, que eles serão a maior e melhor parte desse novo
povo de Deus que constitui o Reino por Cristo fundado e do qual ele era Senhor.
Não é sem uma ideia proposta e preconcebida, que Mateus escolhe no monte onde
pronuncia a novidade do reino, os doze que deveriam ser os novos pais das novas
tribos do novo Israel, não como genitores materiais, mas como pais espirituais,
dos quais todos nós recebemos a nova vida no Espírito.
TÊM
A DEUS POR REI: Esta é a tradução preferida pelos modernos intérpretes. Assim,
o grego Basileia não significa aqui reino, mas ‘reinado’. “Seu é o reinado de
Deus” quer dizer que esse reinado se exerce sobre eles, que somente sobre eles
age Deus como rei. A pobreza a que Jesus convida é a renúncia a acumular e
reter bens, a considerar algo como exclusivamente próprio; esses pobres estarão
sempre dispostos a compartilhar o que têm. A opção final que Jesus propõe,
realiza o prescrito pelo primeiro mandamento de Moisés: Não terás outros deuses
diante de mim (Dt 5, 7). A idolatria concretizava-se na posse da riqueza (Mt 6,
24); por isso o enunciado desta bemaventurança é porque estes e não outros,
têm a Deus por Rei. A opção proposta pela primeira bemaventurança leva à sua
perfeição a metanoia ou emenda, pois quem escolhe ser pobre, renunciando a
monopolizar riquezas, e com isso, à posição social e ao domínio, exclui de sua
vida a possibilidade de injustiça. É a visão da teologia da libertação.
CONCLUSÃO:
As palavras de Jesus são um convite a refletir de forma nova sobre fatos que
consideramos desafortunados, mas que o evangelho torna afortunados. Entre eles
a pobreza, considerada como um castigo divino, mas que agora devemos ver como
uma circunstância providencial, uma verdadeira bênção do céu, porque facilitará
a entrada no reino dos que a sofrem.
OS
QUE CHORAM: Ditosos os que pranteiam [penthountes]. Eles serão consolados (4).
Beati qui lugent quoniam ipsi consolabuntur. O latim e a maioria das traduções
modernas modificam a ordem desta bemaventurança colocando-a em terceiro lugar.
Mas que significa o verbo grego penthountes [<3996>=lugent]? Ele
significa propriamente lamentar os mortos, ou seja, prantear, derramar lágrimas
por alguém, estar de luto. Precisamente a palavra luto deriva do latim lugere
de onde luctus. O grego pentheö [lugere latino] sai 4 vezes nos evangelhos:
Duas em Mateus e uma em Marcos e Lucas. É traduzido por lugere, enquanto o pranto
ou choro como o de um menino é klaiö. Pedro chorou [eklausen, ploravit]
amargamente após suas negações (Mt 26, 75). As carpideiras, ou pranteadeiras,
choravam [klaiontas, flentes] na casa de Jairo por causa da morte da filha (Mc
5, 38). Lucas, neste lugar paralelo, usa klaiö em vez de pentheö de Mateus (Lc
5, 21). Sobre pentheö temos Mt 9, 15 que diz que os amigos do noivo não
podem estar de luto no dia da boda do mesmo. Marcos diz que a Madalena anunciou
a Ressurreição aos que estavam lamentando [penthosin, lugentibis] e chorando
[klaiousin, flentibus]. Os mesmos dois verbos sucessivos usa Lucas em 6, 25.
Também o grego admite como tradução os que se lamentam ou estão
afligidos, como aceitam traduções modernas. Poderíamos traduzir por os que sofrem.
A razão que motiva esta bemaventurança é a de que encontrarão consolação a sua
dor. Logicamente o pranto não é devido a uma dor física, mas a uma perda de uma
pessoa amada ou de bens estimados, necessários para a vida: um infortúnio, uma
desgraça. Alguns traduzem: os que sabem o que significa a tristeza. É o próprio
Deus que será seu consolo, segundo Is 61, 2: A consolar todos os que choram.
Lucas, como a vulgata de Mateus, traz esta bemaventurança em terceiro lugar e a
palavra usada é Klaiontes [o latim flentes, derramando lágrimas] que como
sempre traduz muito literalmente o grego. O texto não diz as razões que
motivaram as lágrimas. Mas no texto de Isaías, citado por Jesus quando do
início de sua missão, encontramos: que foi enviado a consolar [parakalesai] os
que estão tristes [penthountas]. Usa, pois, Mateus os dois verbos que a
Setenta, a bíblia-guia dos primitivos cristãos, emprega. Poderíamos afirmar que
o consolador é o próprio Jesus na sua função de Messias Salvador, ou Cristo.
Ele toma as funções divinas atribuídas a Deus na passiva do verbo
correspondente. Recorda a passagem: Vinde a mim todos vós que estais cansados…
E eu vos aliviarei (Mt 11, 28). OS MANSOS: Ditosos os mansos [praeis
<4239>] porque eles herdarão a terra (5). Beati mites quoniam ipsi
possidebunt terram. PRAEYS: é palavra própria dos mansos, benignos, não
violentos, o mites ou mansuetus latino, que aceitam sua fragilidade e sua
situação social sem revolta, mas com a confiança em Deus que será o último
fautor da História. É uma imagem tomada do Salmo 37, 11: Pois os mansos
herdarão a terra e se deleitarão na abundância da paz. É notável como as
palavras prays e klëronomeo são também as usadas pelo salmista. O sentido claro
é que, definitivamente, o Reino é um reino de paz e que os não violentos são os
herdeiros desse reino que substitui o antigo Israel, a verdadeira terra
bíblica. Por isso Jesus afirma que os contrários do Reino são os violentos que
estão a destruí-lo (Mt 11, 12). No tempo de Jesus, os Zelotas pensavam que
fosse a terra [nome dado à Palestina pelos israelitas] matéria de conquista e
guerra. Jesus, porém, toma a palavra do profeta no salmo 37, 8-9 para indicar
que não é a violência que conquista a terra. Deixa a violência, abandona o
furor, não te inflames: só farias o mal; porque os maus vão ser extirpados e os
que aguardam o Senhor possuirão a terra. De Si mesmo dirá que devemos aprender
porque é manso [praos] e humilde [tapeinos] de coração (Mt 11, 29). De novo
temos a presença de Jesus nesta bemaventurança, agora como modelo humano e não
como Deus que cumpre uma promessa. Esta bemaventurança é uma antecipação do
número 7: os fazedores da paz. Só que, neste último caso, a situação é ativa e
na nossa 3a bemaventurança o sujeito é passivo: pacífico. Terra [gë] era o
termo com o qual declaravam os judeus a porção geográfica que Jahweh tinha dado
a eles por herança (Dt 1, 36 e Nm 26, 53) que Dt 9, 29 identifica com o povo de
Israel. De modo que podemos afirmar que unicamente os pacíficos ocuparão o
espaço dos que pertencem ao Reino.
FOME
E SEDE DE JUSTIÇA: Ditosos os famintos e sedentos de justiça, porque serão
saciados (6).Beati qui esuriunt et sitiunt iustitiam quoniam ipsi saturabuntur.
Esta bemaventurança está refletida, mas de modo material, na segunda de Lucas:
Os famintos [peinontes] agora, pois serão saciados. Esta oposição à
materialidade de Lucas nos descobre uma interpretação espiritualista de Mateus
das palavras de Jesus. Ao mesmo tempo, Mateus conecta com o AT segundo sua
proposição de que Jesus veio não para revogar a Lei, mas para completá-la (Mt
5, 17). São duas as passagens de Isaías que falam sobre sede e fome: 55, 1 e
65, 13. Especialmente nesta última Jahweh se refere aos seus servos que terão
comida e bebida em abundância. Mas que significa a justiça que é a fonte ou
motivo de sede e fome? Em grego dikaiosyne significa: 1) Justiça divina que
premia o bem e castiga o mal. 2) Justiça humana equivalente a santidade moral.
3) Fidelidade divina que cumpre sempre suas promessas que é sinônimo de
salvação. 4) Justiça distributiva humana que respeita o direito e defende em
nome de Deus os mais necessitados. Qual delas é a justiça de nosso versículo?
Provavelmente, a terceira. A justiça bíblica é sinônimo de santidade ou
correção de vida em conformidade com a vontade divina. Não é a justiça
comutativa, mas a essencial da qual nos fala Paulo e que em certo modo se
identifica com salvação e santidade. O lugar paralelo é Mt 6, 33 no qual a
justiça está unida ao Reino. Justos eram aqueles cujo sangue foi derramado
desde Abel até o último profeta (Mt 23, 33). Uma salvação que inclui também o
primeiro significado. Era o desejo manifestado por Simeão: Meus olhos viram a
tua salvação (Lc 2, 30), porque essa salvação foi comparada a um banquete no
qual todos podiam entrar, ricos e pobres, sãos e aleijados, bons e maus. A
entrada é livre, pois a justiça divina se transformou em misericórdia.
Unicamente os convivas deveriam ter uma veste limpa: não buscar a própria
exaltação como os fariseus, mas revestidos de Cristo (Rm 13, 14) de sentimentos
de compaixão, benevolência, humildade, doçura, paciência (Cl 3, 12).
OS
MISERICORDIOSOS: Ditosos os misericordiosos
[eleëmones<1655>=misericordes] porque serão tratados com misericórdia
(7). Beati misericordes quia ipsi misericordiam consequentur. Eleëmones é o
termo grego significando que tem compaixão. Eles alcançarão essa mesma
compaixão que têm com os homens, mas da parte de Deus. Eleëmones só sai esta
vez nos evangelhos. A palavra que é usada da mesma raiz é eleeö <1653>, [
miserere, ter compaixão]. É o verbo usado pelos pedintes de Jesus para uma
cura, como os cegos, a mulher cananeia, o pai do filho epiléptico, etc. É o
verbo usado por Jesus na parábola do servo devedor, a palavra que usa o rico
para pedir de Abraão uma gota d’água. É a compaixão para com aquele que está
necessitado ou pede perdão de uma dívida impagável. O próprio Lucas traduz a
perfeição cristã por misericórdia: sede misericordiosos como vosso Pai (Lc 6,
36). A palavra usada por Lucas oiktirmön <3629> [misericors, que tem pena
de] é mais próxima de compaixão que de misericórdia. Precisamente a eleëmosunë
<1654>=eleemosyna latina [esmola portuguesa] provém dessa raiz grega que
é eleëmosunë. Daí o grande motivo para dar esmolas entre os cristãos.
LIMPOS
DE CORAÇÃO: Ditosos os limpos no coração porque eles verão a Deus (8). Beati
mundo corde quoniam ipsi Deum videbunt. Katharoi<2513>
[mundi,limpos]. Na verdade, o latim com mundo corde diria: ditosos (aqueles)
com coração limpo. O coração limpo, por outros traduzido por os puros de
coração nada tem a ver com a castidade, mas visa os de intenções limpas, os não
malvados, nem torcidos em seu íntimo entre pensamento, palavra e ação por terem
o pensamento diverso de sua palavra mentirosa. Ou seja, os não hipócritas, os
que só pensam em fazer o bem, sem outras intenções espúrias ou indignas por
segundos interesses. Limpos de coração é tomado do Salmo 24, 4: Quem é
limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem
jura dolosamente. O salmo 15, 2 fala de quem vive com integridade e
pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade, o que não difama com sua
língua, não faz mal ao próximo nem lança injúria contra seu vizinho. Esta é a
limpeza do coração, mente, ou intenção, diríamos hoje. O prêmio desta vez é que
verão [opsontai] a Deus. Quando? Evidentemente na figura de Jesus. Como
exemplo: os fariseus viram o demônio expulsando seu colega, quando a gente
simples via o dedo de Deus (Mt 12, 22-24). Por outro lado, eles, os
limpos de coração, são os que buscam a verdade e a encontrão e por isso verão a
Deus em suas vidas porque Deus é a única verdade. A Carta aos Hebreus afirma
que sem a santificação é impossível ver a Deus (Hb 12, 14). Não se trata
unicamente do além, mas do tempo presente em que a premissa básica para
encontrar o verdadeiro Deus é a pureza de intenção. Precisamente Jesus dirá que
é no coração onde se prepara e cozinha a maldade (Mt 16, 19). A presença de
Deus era o Templo, onde Deus estava assentado sobre os querubins da arca (1 Sm
4, 4). Agora o verdadeiro templo é o crente (1 Cor 3, 16), e só se Deus é
adorado em verdade (Jo 4, 24) é que estará ali como estava sobre os querubins
no antigo Templo (1 Sm 4, 4). E nesse templo interior Ele se manifestará.
OS
QUE TRABALHAM PELA PAZ: Ditosos os que trabalham pela paz [eirënopoioi
<1518>] porque eles serão chamados filhos de Deus (9). Beati pacifici
quoniam filii Dei vocabuntur. Os eirenopoioi grego, [pacifici latino],
tem como tradução direta os que fabricam a paz, que infelizmente o latim traduz
impropriamente por pacifici e que a maioria das bíblias adotou como pacífico;
mas pacífico corresponde a 3a bemaventurança com o nome de praeis. Uma coisa é
ser pacífico ou afável, e outra é trabalhar pela paz. Um comentarista diz que
um trabalhador pela paz é um homem que experimentou a paz de Deus e pretende
levar a mesma aos que com ele convivem. De fato, esta é a única vez que é
empregada no NT. Serão chamados filhos, está no lugar de serão verdadeiros
filhos de Deus. Precisamente, segundo Isaías, o filho que nos foi dado, terá
como nome Emanuel [Deus conosco] será chamado Príncipe da paz (9,5). Esse Jesus
que como rei da paz entra em Jerusalém montado num jumento e não num cavalo,
montaria de guerra, para anunciar a paz às nações (Zc 9, 9-10). Os pacificadores
são os verdadeiros continuadores do labor feito por Jesus, levam a paz entre os
homens e a paz para com Deus. Trabalham como Jesus trabalhou, com o mesmo
objetivo e o mesmo motivo: reconciliação e amor.
OS
PERSEGUIDOS(10): Ditosos os perseguidos [Dediögmenoi<1377>] por
causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (10). Beati qui
persecutionem patiuntur propter iustitiam quoniam ipsorum est regnum caelorum.
Dediögmenoi [pesecutionem patiuntur, perseguidos] é o particípio passado passivo
do verbo diökö <1377> buscar ou acossar alguém de modo a ter que fugir
por causa do acossamento. Esta deveria ser a oitava e última bem-aventurança,
mas nos encontramos com um makarismo a mais, o nono. A justiça é como temos
explicado no parágrafo de sede e fome de justiça, a correção de vida que se
ajusta aos planos divinos, e que no AT consistia no cumprimento exato dos
preceitos da Lei, como era o caso de José, esposo de Maria, que devia por lei
denunciar Maria publicamente, mas pensava em repudiá-la ao modo antigo, ou
seja, secretamente (Mt 1, 19). Jesus claramente abona a teoria de que a moral
entra dentro dos planos divinos.
A
JUSTIÇA DO REINO: Ditosos sois quando vos reprovarem e perseguirem e
dizendo palavra má contra vós mentirem por minha causa (11). Beati estis cum
maledixerint vobis et persecuti vos fuerint et dixerint omne malum adversum vos
mentientes propter me. Parece que este é o nono macarismo, porém os autores
afirmam que ele é a explicação do oitavo, indicando quais são a justiça e a
perseguição dos justos. De fato, neste último macarismo, Jesus passa da
terceira pessoa, em termos gerais, para a segunda pessoa dirigindo-se aos seus
ouvintes: vós. A justiça é a que está representada na pessoa de Jesus [por
causa de mim]. A perseguição ou os perseguidos, do verbo dioko, são os buscados
ou acossados pelos inimigos de Jesus, porque atrás deles está o Mestre, como
Ele disse a Saulo, perseguidor dos seus discípulos (At 9, 4): Saulo, Saulo, por
que me persegues? O grego usa neste versículo o mesmo verbo dioko. Dentro da
explicação, vemos que a perseguição implica a injúria, o acossamento e a
mentira. Todos eles, os perseguidos, pertencerão ao Reino e são os verdadeiros
membros do mesmo, o constituem. A última bemaventurança promete a mesma
recompensa que a primeira: o Reino.
A
RECOMPENSA: Ficai alegres e exultai porque vossa recompensa (é) grande nos
céus. Assim também perseguiram os profetas, os anteriores vossos (12). Gaudete
et exultate quoniam merces vestra copiosa est in caelis sic enim persecuti sunt
prophetas qui fuerunt ante vos. A recompensa, ou melhor, o salário misthós
<3408> é uma remuneração que só Deus pode dar e que ninguém
poderá diminuir ou anular, como é o tesouro que as riquezas bem repartidas
adquirem para os que delas se desprendem. Assim podeis comparar-vos com os
profetas que me precederam. A ação profética é precisamente o testemunho de
suas vidas, aparentemente desperdiçadas inutilmente, maltratadas e
vilipendiadas pelos que tinham a obrigação de ouvir e respeitar seus
testemunhos. É uma profecia do que aconteceria após a morte e ressurreição de
Jesus, do qual eles se tornariam testemunhas e profetas. Em todas as bem-aventuranças,
vemos alguma correlação com o AT. Jesus interpreta, pois, o AT de modo a
encontrar o verdadeiro sentido do mesmo. Assim são válidas as suas palavras em
Mt 5, 17: Não penseis que vim revogar a lei ou os Profetas; não vim para
revogar, vim para cumprir.
PISTAS:
1) Jesus [ou a Igreja primitiva] coloca as bem-aventuranças no início da sua
atuação pública, imediatamente após a escolha dos doze. Pelos detalhes de
Mateus, elas ocupam o lugar dos mandamentos recebidos por Moisés no Sinai, ou
seja, Jesus prega uma Boa Nova em oposição a Moisés que proclama uma lei de
servidão. 2) É um evangelho positivo no qual Deus quer mostrar a sua face de
bondade e salvação. E são precisamente esses homens passivos da ação divina que
o mundo pensaria serem os de pior sorte, os que são beneficiados [makarioi,
ditosos] pela riqueza e misericórdia de Deus. 3) Não se trata de uma moral nova
a ser cumprida –à parte o capítulo V- mas de umas circunstâncias nas quais Deus
quer se mostrar magnânimo e divinamente generoso. Por isso, as Bem-aventuranças
estão sendo proclamadas a todos os que de alguma maneira encontram em Jesus o
seu Mestre e Salvador. 4) As bem-aventuranças resumem o espírito evangélico, ou
apresentam um modo novo de olhar para a realidade crua, dos discípulos de
Jesus? Antes parece um juízo feito pela sabedoria divina dos momentos e das
pessoas que nós consideramos desafortunados. Nessas situações tão indesejáveis,
a esperança provém do olhar para a verdadeira essência das coisas: ver a
realidade como Deus a vê. 5) As primeiras constituem a bênção de circunstâncias
que podemos chamar de infortúnio. Estar nas mesmas não é um azar, mas uma sorte
do ponto de vista da providência divina. As segundas implicam uma recompensa
para determinadas virtudes que são essencialmente cristãs. Todas constituem a
Boa Nova para necessitados ou almas de boa vontade. A Boa Vontade divina agora
inclui a boa vontade humana.